segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

42 - Mindstorming | São Paulo, 5 de Fevereiro de 2013, 18:10.

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 São Paulo, 5 de Fevereiro de 2013, 19:03.


 Estava andando na maior tranquilidade pela rua, ainda esta encantado pela complexidade, pela brutalidade e pela beleza dessa cidade perversa. Ah... São Paulo, como eu poderia ter vivido nela minha vida inteira e não tê-la conhecido como deveria?! Até aquele momento estava conhecendo um mundo novo, fascinante, brutal e viceral, mas, apenas como espectador. À partir dali eu passaria a fazer parte dele, das entranhas da cidade, como se ela estivesse me convidando para interagir, o que eu de fato queria, mas não tinha idéia de onde isso me levaria... e as coisas que isso me levaria a ver e a fazer.

 Assim como no dia anterior fui caminhar pela região, pela minha "nova vizinhança". Sempre gostei de andar por aí e reparar nas pessoas, suas fisionomias dizem muito à respeito delas. Mas, claro, não é de bom tom um sujeito ficar encarando as pessoas pela rua, por isso sempre me contive, mas aqui, me parece não fazer a menor diferença.

 De repente, quando estava passando por uma praça, tive de encarar, de forma mais realista do jamais havia, a cara violenta da cidade.

 - Aí, maluco, 'mim' dá a carteira!
- Vai logo mano, dá logo essa merda, filho da puta! - Me disseram dois pivetes, aos gritos, socos e pontapés.

 Com o empurrão, que um deles me deu, eu cai e cortei a mãao numa cesta de lixo. Nunca antes havia sido assaltado, fiquei realmente apavorado, mas não podia deixar barato. Minha carteira era meu passaporte para esse mundo novo, sem ela eu estaria perdido. Tinha que pegá-la de volta! Assim que me levantei já tirei o paletó, o enrolei na mão e me pus a correr atrás daqueles "ladrõesinhos" desgraçados!

 Já estava escuro e eles eram muito mais hábeis que eu naquele ambiente, mas a raiva era tanta que eu não desistia!
 Mesmo naquela correria toda eu rearava na cara das pessoas, parecia inacreditável ver alguém reagindo e perseguindo aqueles moleques, era quase uma inversão de valores, quase como se eu não tivesse direito de reagir.

 E eu continuava correndo, embora eu já estivesse ficando cansado, tão cansado que não consegui desviar de um pontapé que recebi. Foi de um outro garoto que passava pela rua, talvez dois outros dois, quem sabe? Ou, talvez, fosse só um defesa da "categoria". Esse tipo de atividade tem sindicato?! Sei lá! Só sei que cai, cinematograficamente, em cima da grade de um vendedor ambulante de DVDs. Foi DVD para todo lado! E ainda bati as costas num poste, fui xingado pra caramba... Deitado após a queda eu consegui ver aqueles moleques rindo e entrando num beco!

 Me levantei meio cambaleante e exausto, mas eu não iria desistir de jeito nenhum! Entrei sorrateiramente no beco, tentando disfarçar ao máximo minha respiração ofegante. Adentrei naquele buraco escuro, mal conseguia ver onde pisava, mas fazia um esforço danado para não fazer barulho. ia me guiando pelas risadas e pelos comentários dos dois.

- Hahaha! Você viu aquele idiota!
- É trouxa mesmo! O filho da puta ainda queria vir atrás da gente.
- Ele que tente, quero só ver ele achar 'nóis'.
- Viu como ele caiu? Otário!
- Vi! Hahaha... Aquele não levanta mais...

 Fui me aproximando, me aproximando, me aproximando... até que me dei conta; -"E se esse moleques forem mais perigosos do que eu penso?" Peguei a pedra mais pesada que eu achei no chão, um paralelepípedo de pavimentação e quando consegui vê-los, estavam sob a luz de uma lâmpada improvisada de um local já preparado para isso, cheguei mais perto e fui preparando a emboscada, mas não consegui pensar em nada melhor que :

- Parados, Polícia! - Tsc, tsc, tsc... Lamentável... Mas foi o suficiente para um dele exitar e baixar as mãos.  Mas o outro se virou e viu que era eu.
- Ei, é você? - Disse, virando o outro para que me visse.

 Nesse momento foi a única vez que eu vi seu rosto mais detalhadamente. Sua feição era de medo, mas também era de alguém que, embora não quisesse fazer, faria qualquer coisa para sobreviver. Enquanto eu observava seu rosto eu reparei num brilho diferente surgindo mais embaixo. Aquele filho da puta iria levantar uma arma. Não dessa vez! "Tum!" Acertei sua cabeça com aquele paralelepípedo tão pesado. Pus toda a minha força, era uma questão de vida ou morte, mas era também uma questão pessoal, uma r aiva incontida coma a injustiça. No mesmo movimento que eu fiz para acertá-lo nós dois caimos, ele ainda tentou me acertar um tiro antes de eu começar a pilar a sua cabeça com a pedra, até não não sobrasse mais nada rosto que eu havia visto. Mais nada de vida... Ouvi um barulho de coisas sendo derrubadas, era o outro menino fugindo.

 Diante do ocorrido eu tive um choque de realidade. Eu havia matado alguém. Eu vagava pelas ruas pensando no quão errado era o que eu havia feito. Será que aqueles meninos eram realmente tão ruins? Será que eu não faria o mesmo na condição deles? Não tinha tempo de devanear à respeito, tinha que sair dali. Achei uma poça d'água e lavei as mãos e o rosto, mas não era o suficiente. Limpei as mãos na camisa, o máximo que pude, e vesti de novo o paletó, um pouco molhado porque havia caído no chão durante a briga. Sai rapidamente, não antes de pegar a arma do menino e levar comigo, não sabia mais o que eu poderia esperar dali.

 Depois de um tempo "vagando pelos becos" , olhei para cima e vi o luminoso de neón vermelho;



"RIVIERA"

 Escondi a arma num bueiro próximo e me dirigi ao local. Ainda meio tenso me apresentei e adentrei no recinto. Era um bordel dos mais decadentes, não me surpreenderia se fosse só um "negócio" de fachada.

- Boa noite, primeira vez na casa? - Disse a "cafetina", "gerente" ou qualquer coisa do tipo...
- É sim. - Olhando para todo canto, com medo de ser surpreendido por alguém.
- Fique à vontade.

 Entrei mais para me esconder e para tentar limpar a minha camisa ensanguentada e minha mão cortada e suja, uma infecção não seria nada legal.
 Olhei em volta, e comecei à me sentir mais à vontade, mais confortável. Estava praticamente vazio e com algumas garotas, até que bonitas, apesar de bastante entediadas. Dentre elas destacava-se uma garota morena de cabelos encaracolados e um vestido branco, destacava-se sobretudo porque as outras estavam praticamente nuas.

- Olá, tudo bem? - Saiu meio enrolado por causa da pressa
- Olá! Prazer, Melissa.
- Vamos! - A interrompi, não tinha tempo e nem disposição de ficar papeando no meio do salão.

 Paguei por um período de meia hora, me pareceu o suficiente para um banho, para lavar minha camisa e para passar a adrenalina. Já no quarto mal troquei duas palavras com a garota e já estava no chuveiro tentando lavar a minha camisa.
- O que você está fazendo?- Nada, só lavando minha camisa. Eu cortei a mão e ela ficou toda suja de sangue.- Não er bem uma mentira, só omiti o que aconteceu entre umas coisa e outra.
- Estranho... Porque você não deixa isso e vem aqui, meia hora passa rápido. - Mulher nenhuma gosta de ser ignorada.
- Já vou. É que eu preciso lavar isso aqui, não está saindo.
- Quer que eu ajude? Eu sei lavar muito bem.
- Não, não precisa. Não tem shampoo aqui?! - Hum, não por 40 contos...
- 'Peraí', você está fazendo errado! Deixe eu ajudar.
- Não, eu consigo! - Não sei em qual momento isso se tornou uma disputa de egos, mas iria ganhar!
- Nossa, está mesmo muito ensaguentado! Deixe que eu lavo, você não sabe o que está fazendo! - Disse tomando a camisa de minha mão.
- Então tá, pode lavar. - Perdi

 Mas não é uma filha da puta?! Mulheres adorar contrariar. Aposto que se eu tivesse chegado e dito; -"Tô, lave aí minha camisa!", elacertamente irira dizer; -"Eu não, lave você! Sou puta não sua empregada!" Mas só porque eu não pedi ajuda ela estava toda solícita, toda disposta a ajudar, a mostrar que sabia mais que eu. Era até bonito de ver essa menina dedicada em fazer a minha camisa ficar branca. Pode parecer egoísta mas todo homem gosta de se sentir cuidado às vezes, às vezes... Muitaas mulheres confundem isso com uma superproteção sufocante. Mas com aquela garota eu não corria esse risco, era mais como uma "transação" de negócios.

- Você vai vestir ela assim toda molhada?!
- Não. Estava pensando em usar o paletó fechado e levar a camisa numa sacola.
- 'Estava' pensando? - Disse com um olhar, como se dissesse. -"Qual é, você acha que mora aqui?"
- É estava... Não era essa a minha intenção à princípio, mas, eu tive um dia difícil hoje...
- O que você quer dizer afinal? Aliás, seu tempo está acabando. - Ela não tinha idéia de como estava certa.
- O que quero dizer é que você é uma garota bonita, me tratou muito bem até agora, claro que eu sei que esse é seu trabalho e tudo...

 É tão estranho ficar se justificando para alguém que você mal conhece, e como justificar uma ereção afinal de contas?! E nesse lugar ainda, justificativas são completamente desnecessárias...

- Nossa como você é estranho! - Estou começando a ter que concordar
- O que eu quero dizer é que mereço relaxar um pouco e ter uma boa noite de sono. Desça lá e diga que eu ficarei com o quarto a noite inteira, e com você também. Além do mais minha camisa já estará seca pela manhã...


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(...) me lembrei do meu velho pai agora, velho miserável... Chega a ser desconcertante ver alguém tão vazio, tão sem esperança. É uma meio homem, é "um homem quebrado."* Viva me dizendo;-"O que você está fazendo parado aí?! Vá procurar o que fazer, você não vai querer ser um fracassado como eu!" Na verdade acho que eu estava tentando me defender, mas vendo agora, me parece que o que eu sempre quis foi ser igual a ele. Acho que hoje eu posso dizer; -"Deu certo." Estou tão fracassado quanto ele sempre se queixou de ser, aliás, queixar-se era tudo o que ele podia fazer. Isso deve significar alguma coisa... Ou não!
 Acontece que as pessoas estão sempre procurando significado nas coisas mais insignificantes, numa tentativa desesperada de dar sentido a essa enorma perda de tempo e energia a qual chamamos de VIDA, SOCIEDADE, DESENVOLVIMENTO... -"Fulano de Tal sofreu um grave acidete e não morreu! Isso deve significar algo!" Não! Isso não significa nada, ou melhor isso significa aquelas uma coisa, ESTATÍSTICA. Se o tal Fulano tivesse 100% de chances de morrer ele teria morrido. Mas o povo é tão miserável que se recusa a aceitar que possa fazer parte de um grupo seleto e especial, o 1% que se salva. E é por isso que ninguém se salva! Estão sempre esperando por um salvador, estão sempre querendo transferir a responsabilidade de seus atos e das consequências de seus atos, ou mesmoa obrigação de fazer a vida dar certo, para as outras pessoas, para o governo, para o sistema, para um deus, para as drogas, todos menos eles... A muleta é o Messias! "Somos um grupo muito desprezível".*


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1 - Mensão a música do grupo Bee Gees interpretada por Al Green, "How Can You Mend A Broken Heart". -"How can you mend a broken man? How can a loser ever win?"

2 - Frase atribuída a Albert Einstein; -"Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível."

quinta-feira, 5 de maio de 2011

42 - Mindstorming | São Paulo, 10 de Fevereiro de 2013, 20:34.

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 São Paulo, 10 de Fevereiro de 2013, 20:34.

   Noite fria, caia uma garoa fraca mas que já começava a incomodar. Já fazia uma semana que não falava com a Júlia, estava sentindo falta dela. Sabe como é a gente se acostuma com essas coisas, ter casa, emprego, alguém do seu lado...

  Naquele momento já não tinha certeza de nada. Não aparecia em casa há algum tempo e, convenhamos, não havia nada lá além de coisas velhas e lembranças de uma vida que já não era minha. Ir lá só por "protocolo"? Não! Eu estava mesmo a fim de aproveitar um pouco a vida. Só não sei porque tenho esse estranho fascínio pelo centro de São Paulo, sempre tive essa obsessão em saber como é a vida num lugar tão perverso. Estranho não é?

  Emprego não sabia se ainda tinha, nem se fazia questão dele, essas coisas não são prioridade! Daria dois telefonemas e conseguiria o emprego que eu quisesse!

  Já a Júlia era outra história... Porra, já fazia uma semana! Será mesmo que ela havia me deixado e me esquecido? Tínhamos problemas mas isso é normal! Não saía da minha cabeça, por mais que eu tentasse, ficavam repetindo sempre as mesmas palavras... -"Para mim já chega! Acabou!"

  Ficava pensando se ela havia falado sério...

  Estava andando pela rua, como de costume, e logo me deparo com uma figura, um homem negro alto, apesar de magro não parecia nada debilitado, com uma roupa de militar bem velha e gasta... Ora, era um mendigo militar! Nunca havia visto nada do gênero...

- Ei, você tem um cigarro para me arranjar? - Perguntou o mendigo militar
- Eu não! Isso dá câncer e um monte de outras doenças e complicações. - Disse com o ar mais moralista do mundo, só de sacagem
- Entendo. O trânsito está lento sentido Centro / Norte.
- O quê? Do que está falando?
- Te perguntei se você tinha um cigarro para me arranjar. Você não me deu nenhum, e me deu uma informação que eu não pedi. Então eu lhe dei uma informação que você não pediu e nenhum cigarro. Estamos quites! - Filho da mãe... Gostei desse cara

Realmente achei muito interessante a desenvoltura daquele sujeito em meio a um ambiente tão duro, além de lidar tão bem com a rejeição. Fora que inteligência e senso de humor são coisas que eu admiro.

- Ei! - O chamei
- Diga... - Disse como se já esperasse alguma reação ruim de minha parte
- Eu compro! Qual Cigarro você quer?
- Pode ser aquele de filtro vermelho, de caixinha. - Específico, não?...
- Está bem, espere aqui. - Entrei num boteco próximo e comprei o cigarro tão esperado
- Muito obrigado moço. Se tiver algo que eu possa fazer...

  Pensei que seria bom fazer "amigos" ou pelo menos conhecer gente que entendesse como as coisas funcionavam por lá.

- Meu nome é Lucas. Qual o seu?
- Gregório! Mas todos me chamam de Coronel Azeitona... Sabe, por causa da farda. - Mostrou aquele farrapo sujo com o maior orgulho do mundo
- Olha, faz eu novo nesse "negócio" de morar por aqui e gostaria de saber se você pode me mostrar os "caminhos"?
- Novo em quê? Você não conhece a cidade?
- Não essa parte da cidade, o centro. Nesse momento eu estou morando num hotel, mas logo vou ficar sem dinheiro e preciso me organizar.
- Não entendo o que você faz aqui! Acha que é algum tipo de brincadeira?! Se fosse meu filho lhe dava uma surra! - Fiquei com medo na hora, o cara era grande
- Não senhor Gregó...
- Coronel Azeitona! - Me interrompeu com um ar meio autoritário, coisa de militar.
- Claro, Coronel Azeitona! Eu estou passando por um momento complicado e estou querendo curtir uma experiência diferente.
- Entendo. Olha garoto, acho isso uma burrice, mas eu não tenho que achar nada. Se precisar de alguma coisa me procure, estou sempre pelas ruas, mas não ache que um maço de cigarros é um contrato.

  O "Coronel" era uma cara legal e habilidoso, parecia completamente adaptado a essas condições extremas. Ele carregava um carrinho de compras velho e cheio de tranqueiras e vendia uns gorós baratos, uma mistura de álcool de limpeza com xarope de groselha, não tomaria aquilo nem morto! E no meio daquele monte tralha tinha algo interessante, um rádio amador! Sei lá se ele montou, comprou, ou roubou, só sei que pegava a rádio da polícia, bombeiros, táxi, emergência, pegava tudo... E estava sempre ligado numa bateria de moto. Ele acenou com a cabeça e foi embora, e tão logo começou se afastar ele se misturou ao "cenário". Cheguei até a admirá-lo por um momento, mas logo percebi que não era muito mais que um mendigo...

  Não sei se o fato de alguém estar com roupas tão sujas e velhas o faça fundir-se com a sujeira da cidade, ou se nosso subconsciente é treinado para apargamos ele do nosso campo de visão. São centenas de pessoas largadas pelo chão, pelos bancos, pelas calçadas e pelas praças e ninguém parece vê-las! Só são notados quando estão pedindo dinheiro, assaltando alguém, ou "indignando" as "pessoas de bem" ao usar drogas ou defecar no meio da rua. Mas são poucos os que se indignam ao verem seres humanos ali jogados à própria sorte, e muitos já nascem nessa condição. Acho que poucos são aqueles que os "enxergam" eles como seres humanos. Pode parecer "chover no molhado" mas se um senhor de terno começar a tossir e se apoiar numa parede logo aparecem várias pessoas para ajudá-lo. Entretanto se um mendigo se contorcer de dor no chão, enquanto cospe parte de algum órgão interno, tudo o que ele recebe é o desprezo dos pouco que o percebem ali. Na maioria das vezes eles nascem, vivem e morrem invisíveis.

  Parei de divagar a respeito e procurei um lugar para me proteger da garoa, que nessa hora estava começando a piorar. Já estava praticamente todo molhado. Acabei por entrar num café, claro que não sem antes comprar um jornal na banca ao lado. Na verdade nem estava tão interessado em lê-lo...
Comprei mais porque me parecia "apropriado" entrar e permanecer dentro de um café portanto um jornal. No fim das contas o jornal passa a ser uma parte do vestuário. Já estava sem guarda-chuva não entraria lá sem jornal!

- O que deseja senhor? - Me perguntou de forma muito educada o garçom
- Um cappuccino e umas rosquinhas, por favor!
- Só um instante senhor. Logo trago seu pedido.

  Impressionante como ir num bom café massageia o nosso ego, sobretudo se estivermos bem vestidos e portando um jornal. É como uma masturbação moral! Fiquei imaginando como seria o tratamento se eu aparecesse por lá com meu novo "amigo" Coronel Azeitona. Ou mesmo se poderíamos entrar.

  Era um lugar bonito, bem decorado, bem "frequentado" e com excelente atendimento. Apesar que algumas das mesas ficavam onde deveria a calçada, a apropriação era tamanha que havia um toldo para proteger da chuva e uma cerca viva para "proteger" das pessoas, que passavam pelo espacinho que sobrou da calçada.

  Comecei a passar o olho pelo jornal e nada me interessava. Lia as matérias e não entendia nada, simplesmente não estava interessado em nada. Mas já que estava com o jornal e nenhuma companhia resolvi que o mais "apropriado" era fingir interesse e continuar lendo. Mas o que eu queria mesmo era ouvir uma voz amigável.

- Senhor, aqui está o cappuccino e as rosquinhas. Deseja mais alguma coisa? - Quase perguntei se eles não serviam uma boa companhia também...
- Não, obrigado.


Já quando estava conformado com a minha situação ouço uma discussão..

- Ah, sai daqui! Não enche meu saco porra! - Gritou um senhor gordo e "elegante" que transbordava de arrogância
- Mas só perguntei se queria comprar umas flores para moça. - Retrucou a vendedora de flores
- Não me interessa, você está incomodando! Olha para você! Pelo amor de Deus!
- O que tem eu?
- O que tem você?! Você não devia nem me dirigir a palavra! Sua mendiga! Seu lixo!

- Eu trabalho, não sou mendiga!
- Moça, a senhorita precisa sair daqui! - Disse o segurança do local
- Sair daqui?! Aqui é a calçada! É local público!

  Ela acabou por sair dali, indignada mas, de certa forma, conformada. Quando ela passou pela cerca ao meu lado a chamei.

- Ei moça!
- O quê? - A voz triste quase não saiu
- Eu quero duas rosas.
- Quer? São cinco reais.
- Aqui está.
- Muito obrigado. - Disse realmente feliz pela venda
- Posso te perguntar uma coisa?
- Pode.
- Qual o seu nome?
- Alice, porquê? - Começou a ficar desconfiada
- Por nada. Meu nome é Lucas. Eu estava aqui pensando que seria muito bom ter uma companhia agradável para conversar. E eu vi o que o escroto ali fez contigo. E eu gostaria de te chamar tomar um café comigo.
- Por que você nem me conhece?!
- Mas quero conhecer! Eu não conheço ninguém por aqui, sou novo no centro!
- Eles não vão deixar eu entrar! Não viu como o segurança falou comigo...
- Não se preocupe, eu falo a língua deles! A linguagem monetária! Se você tem dinheiro é Deus. E eu não quero ter que ficar aqui sozinho lendo um jornal com coisas que não me interessam. Me interessei por você.
- Se você conseguir que eu entre tudo bem... - Incrédula

  Chamei o garçom e paguei a conta. Então saí para encontrá-la do lado de fora do café.

- Desistiu do café? - Disse como se já esperasse por isso
- Eu não! Vim buscá-la, não seria educado esperar por você lá dentro.

  Fomos para a entrada do café e logo fomos parados pela hostess. Que figura mais detestável! Uma moça com um sorriso
congelado no rosto e um olhar frio, que mais parecia uma arma apontada para nós. Ela era a responsável por manter o cinismo e a homogeneidade dos frequentadores. Era como uma inspetora numa linha de montagem, toda peça que fugisse do padrão deveria ser retirada da linha e mandada para o incinerador...

- Pois não, no que posso ajudar? - Disse ela torcendo desesperadamente para que não entrássemos, embora não pudesse demonstrar
- Queremos uma mesa para dois.
- Não sei se será possível...
- Ah é? E qual o problema?
- Ela, senhor.
- Claro, eu... - Disse,
Alice, decepcionada

- E qual o problema com ela? - Eu sabia mas queria ouvir da boca dela
- Ela não atende ao nosso código de vestimenta. - Filha da puta!
- Ah... É isso então... Por que não põem logo uma placa aqui na fachada escrito; "Proibido pobres!" Isso é um absurdo!
- Lamento senhor mas regras, são regras. - Disse com aquele sorriso maligno e cínico no rosto
- Eu entendo vocês!
- Entende? Que bom então voc...
- Eu entendo que dinheiro é a única coisa que importa! Venha cá!
- O que senhor?
 

  A chamei, me aproximando de seu ouvido, e sussurrei bem baixinho:

- Olha, eu sei que você não faz as regras, mas também sei que é você quem determina quem entra e quem não. Não quero problemas, só quero entrar tomar café e conversar com minha amiga. Eu tenho dinheiro para pagar a conta e tenho dinheiro também para, quem sabe, um eventual agrado a sua pessoa...
- Entendo sua condição, senhor. - Um tanto desconcertada
- Então poderemos entrar? - Disse a Alice
- Sim. Mas não poderão ficar no salão principal, somente naquela mesa ali. - Apontou para a mesma mesa no canto onde eu havia ficado.
- Ótimo! Ficaremos lá então. Agradeço a sua compreensão! - E espero que tenha uma morte terrível...


 Caminhamos até a mesa sob os olhares de reprovação de praticamente todos no local. Eles são "educados" demais para se manifestarem, mas se pudessem, nos espancariam com suas carteiras e cartões de crédito. Enquanto andávamos eu observava a Alice, como era bonita... Dava para ver que por baixo daquelas roupas velhas e todo aquele cansaço do trabalho havia uma garota linda.

- Nossa, é estranho isso! - Acho que nunca havia entrado num lugar assim
- É bem legal, se você tem dinheiro então, maravilhoso!
- Não sei como deve ser.
- Não ainda, quem sabe um dia. Vem cá, você mora onde?
- Não é debaixo da ponte se é o que quer saber. Moro num quarto que divido com outras três garotas, mas pelo menos não é na rua.
- É próximo daqui?
- Sim mas nem se anime, homens não entram. E eu mal te conheço! - Tentando tirar minhas esperanças
- Não é isso. Eu estou morando num hotel grande que tem aqui por perto também, mas logo eu terei que sair. Ainda tenho dinheiro mas não sei até quando.
- Fala daquele grandão que tem aqui na rua de trás? Não lembro o nome mas é lindo!
- Sim, esse mesmo. Também não me lembro do nome. Mas ele é caro, vou ficar só mais uma semana nele, depois tentarei achar outro mais barato.
- Você não é de São Paulo?
- Sou! Nascido e criado! Inclusive tenho uma casa. Mas eu estou morando no centro agora. É meio complicado...
- Deve ser mesmo para alguém sair da própria casa para se enfiar nuns hotéis do centrão. Nada por aqui é bonito e limpo se não for caríssimo.
- Estou passando por um momento difícil. Mas imagino que não seja pior que nada que você tenha vivido.
- Ah... Claro! Quer conversar comigo para que minha vida "horrível" o faça sentir-se melhor com a sua... - Na verdade era quase isso mesmo
- Não! Nada a ver! - Cínico - Não é isso. Eu realmente não gostei de ver alguém ser tratado como você foi. Ainda mais uma garota tão bonita.
- Deixe eu adivinhar... Advogado?
- Eu? Não, porquê?
- Por que mente sem vergonha alguma, deveria considerar a profissão.
- Não estou mentindo...
- Olha eu preciso ir, tenho que trabalhar! Muito obrigado pelo café.

  Fico impressionado como eu sou sem jeito com as mulheres, é surpreendente que a Júlia tenha ficado comigo.

- Vai mesmo?
- Preciso. Não estou brincando de morar no centro, preciso ganhar dinheiro para comprar comida. Aliás as rosquinhas estavam ótimas.
- Tudo bem. Espere um instantinho, vou pagar a conta e já volto.

  Paguei a conta, troquei umas notas e peguei com o caixa dois pedaços de papel e uma caneta, precisava fazer dois bilhetes.


- Vamos?
- Vamos.

  Refizemos o caminho até a porta sob os mesmo olhares de reprovação, apesar que alguns olhares estavam mais para gozação e pena dessa vez.

  Ao passar pela hostess a cumprimentei com um aperto de mão e nesse momento entreguei um pedaço de papel enrolado. Ela sabia o que era, abriu o sorrisão e nos desejou uma boa noite.

  Já para Alice eu lhe entreguei umas das rosas que havia comprado dela mesma.- Para você. - Entreguei a rosa

- O que isso? Você a comprou, é sua.
- Mas eu estou te dando, é sua agora. Você passa o dia vendo outras garotas recebendo rosas e, imagino, nunca deve receber uma. A outra vou guardar para me lembrar de você.
- Obrigado. Mas elas morrem logo! Se precisar de uma para se lembrar de alguém é bom começar a pensar onde vai guardá-la quando ela morrer... - Ela parece mesmo ser uma pessoa bastante desiludida
- Tudo bem, eu penso. Dentro dela tem um bilhete que eu escrevi para você, mas só abra em casa. Não venda essa rosa, por favor.
- Ok.
 

 Fui embora, estava certo que a noite não me traria nenhuma outra novidade. Fui para o hotel dormir. Ah... No bilhete para a Alice estava escrito: 

... 
"Espero não ter prejudicado seu dia de trabalho. Para compensar o tempo gasto comigo, e minha necessidade de companhia, estou te deixando essa grana para cobrir seus gastos e suas necessidades.
Não é muito mas ajuda."
...

 Junto havia duzentos reais, em quatro notas de cinquenta. E no bilhete que eu deixei para a hostess? Também fui muito educado e sensível:


... 
"PUTA!"
...  

 Junto havia cinquenta reais, em três notas de dez, duas de cinco, e cinco de dois. E uma bela duma cusparada... Ela mereceu!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

42 - Mindstorming | São Paulo, 24 de Fevereiro de 2013, 04:16.

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São Paulo, 24 de Fevereiro de 2013, 04:16.

  Já dormindo profundamente, estava cansando pra caramba, não estava sendo nada fácil morar por ali. De repente sinto uma movimentação estranha no meu paletó, que estava usando como travesseiro. Acordei meio assustado, poderia ser um rato, odeio ratos! Eles transmitem doenças, e eu já tenho problemas demais!

  Para minha surpresa, embora não devesse ser, não era um rato. Eram três indivíduos nojentos, tão magros que se podia ver perfeitamente cada osso daquele corpo miserável e doentio, e com a pele tão cinza que pareciam estar mortos, ou quase. Não bastasse tudo isso se coçavam o tempo todo, cabeça, braços, rosto... Suas peles já estavam tão encrostadas que cada novo coçar abria uma velha ferida. Era uma sensação realmente angustiante.

  Não podia ficar ali só esperando, respirando o mesmo ar infectado que eles, foi uma péssima idéia desde o princípio. Então tomei coragem, tomei um último fôlego e se desse teria tomado uma caninha também, teve que ser a seco. Dei uma porrada cruzada, que me deu até um certo orgulho, bem na orelha de um deles.

- Que porra é essa?! Tirem essas mãos nojentas das minhas coisas senão...

  Não tive tempo para completar a frase. Levei um baque na nuca que pareceu ter sido com um cano de ferro. Fiquei grogue na hora. Logo dois agarraram meus braços e os puxaram para trás me imobilizando, não sabia o que ia acontecer mas já estava temendo pelo pior.

- Então você nos acha nojentos, não é?
- Falou com muita dificuldade e com uma voz áspera realmente horripilante. 

- O que vocês querem pegando minhas coisas?! - Não sei mesmo de onde saiu essa coragem fora de hora.
- O que você acha? Queremos suas coisas! É bom aprender que quando se está nas propriedades do "Rato" tudo é do "Rato".
- E o que ou quem é Rato?
- Eu sou o Rato! - Era um cara enorme de gordo e com um ego tão inflado que parecia ter "engolido" o mundo - E não estou gostando nada da sua atitude. Pode ser que tenhamos que botá-lo no seu lugar, mostrar quem é que manda.
- Se encostar em mim eu te mato! - Cale a boca porra! Sério, às vezes eu gostaria de me bater.
- Você me matar? Quando? Não parece que pode fazer isso agora. Marco, - ele acenou com a cabeça para um magrelo nojento que estava observando - Ele me parece estar com nojo da gente. Por que não vai lá dar boas vindas, talvez ele mude de idéia?

  Arrepia só de lembrar. Aquele magrelo escroto chegou bem perto de mim com aquela respiração pesada e tuberculosa e deu uma fungada bem no meu nariz. Depois abriu a boca, que parecia ter só uns três dentes, mostrou-a para mim e deu uma lambida no meu rosto.


- Argh! Pare com isso seu filho da puta! Eu te mato!
- Lá vem ele de novo com esse papo de matar. - Falou o Rato - Acha mesmo que tem algum poder aqui? Eu posso te matar!!! Ou acha que eu teria alguma dificuldade de enfiar essa faca no seu bucho? - Disse enquanto cortava minha bochecha num corte bem grosseiro com uma peixeira velha e enferrujada.
- Vá se foder! Se fizer qualquer coisa comigo eu estouro essa sua cabeça escrota! - Achei mesmo que ia botar medo nele.
- Ah é? E como vai fazer isso? Revistem ele! - Disse ordenando a um menino que estava por ali.
- Nada Rato! Esse cara está se borrando todo e ainda fica bancando o foda. Não tem nenhuma arma aqui. - Disse aquele moleque maldito.
- Olha, eu estou perdendo a paciência com sua falta de classe. Mentindo para mim, o Rato, que falta de educação... E ainda querendo me intimidar! Olha garoto, estou nessa há muito tempo, não tenho medo de você. Se eu enfiar essa seringa vazia no seu pescoço e apertar o êmbolo você já era! Sua coragem vai gradativamente derret
er junto com sua cara de mal, tornando-se uma feição de extremar dor e demência. - Ameaçou-me mostrando uma seringa bem nojenta.


- Nã...não... - É, nessa hora eu estava me borrando demais para bancar o herói.  
Vejam, a coragem sumiu! Onde será que ela está? Junto com seu rabo entre as pernas? - Vou admitir o Rato sabe amedrontar alguém - Está com medo da seringa vazia? E que tal agora? - Injetou a seringa num cara ofegante que estava agonizando no chão e tirou um pouco de sangue.
- O que... o que que é isso? O que vai fazer comigo?
- Isso é o que eu gosto de chamar de "coquetel de nóia". É um pouco de sífilis, um pouco de tuberculose, anemia, um pouco que cada droga conhecida e muito, mas muito HIV...
- Não! Por favor não faça isso! Eu imploro! Pode pegar o que você quiser, pelo amor de Deus!
- Hahaha... Deus? Olha aqui meu amigo, não há Deus aqui! Esse é o lugar onde Deus faz suas necessidades, ele não está nem aí para nós! E ele não manda aqui! Mas eu, por outro lado, mando. Esse é meu território, como disse, território do Rato! - Impressionante como a soberba o impedia de lamentar a condição deplorável em que viviam, ele era como o "Don Corleone" do lixo - Fico feliz pelos seus "presentes"... O que vai fazer quando eles o soltarem? - Disse olhando para a porta.
- Eu vou embora! Nunca mais volto aqui! Você nunca mais vai ter notícia minha. Eu juro!
- Claro que jura! Jura pelo Rato, e pela sua misericórdia... Soltem esse fedelho!

 Foi sentir o braço ser um pouco afrouxado que eu já saí correndo. Levei tapas, pontapés e cusparadas daqueles doentes escrotos! Fui caindo pelas escadas velhas e cheias de vagabundos. Logo estava fora, e corri para onde havia deixado as chaves do meu carro e a arma que peguei daquele trombadinha, por sorte ainda estavam lá. Fui para o meu carro e saí correndo dali.

 O filho da puta do Rato pegou minha carteira, não duraria muito ali sem ela. Não havia outro jeito, tinha que pegá-la de volta! Mas eu nunca entraria naquele lugar sozinho e desprevenido. Como eu disse odeio ratos, eles transmitem doenças!

 Fui cuidar do ferimento no rosto e juntar a "dedetização". Aquele "rato" ia sentir o gosto de chumbo quente.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

42 - Mindstorming | São Paulo, 3 de Fevereiro de 2013, 18:10.

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 São Paulo, 3 de Fevereiro de 2013, 18:10.

 Tardezinha depois do trabalho passei no "B-Ginho", Bar do Jorginho. Na verdade nunca entendi o porquê desse trocadilho infame e, francamente, eu não ligo. Só sei que estou cansado demais! Estou merecendo uns gorós... Se trabalhar o dia inteiro num escritório, aturando o "merda" do meu chefe, não for merecimento o bastante eu não sei o que é.

 Acabei dando sorte e encontrei um camarada meu de longa data, Rafa. Pegamos uma mesa e ficamos jogando conversa fora. Ah, cerveja gelada! Como um amigo meu costuma dizer; -"O elixir da amizade!" Uma cervejinha gelada vai bem com esse calor todo, odeio o verão! Inclusive odeio o horário de verão, parece que o dia não acaba nunca. E essa hora é foda, é a hora em que todo mundo está de saco cheio depois do trabalho, ou rezando para sair logo. Só não é pior que de manhã. Aliás, quem foi o maldito que inventou essa estória de "horário comercial".

- Cara, o horário comercial é aquele no qual o comércio está aberto, certo?
- Certo...
- E para o comércio 'comercializar' algo é preciso que as pessoas entrem nos comércios, certo?
- Certo...
- Então, por favor, me explique por que os comércios estão abertos quando todos estão trabalhando e fecham quando todos estão livres?
- Pode crer! Nunca tinha pensado nisso... Mas não são todos.
-Claro que não é todo tipo de comércio, os shoppings, por exemplo, ficam abertos até mais tarde e são quem mais faturam.
- Eu é que sei, odeio trabalhar em shopping... Eles faturam, eu continuo na merda!
- É foda! O pior é que os serviços também seguem o horário comercial! No comércio pelo menos temos a opção dos shoppings. Dá para acreditar que eu trabalhei num banco por cinco anos e nunca consegui ser atendido no banco no qual eu tinha conta?
- Nossa! Por quê?
- Ora, os bancos não abrem antes das 10:00 e eu "entrava às 8:30", ou pelo menos deveria entrar. E eles fecham às 16:00 e eu "saia às 17:30".
- E porque não pediu para o seu chefe para entrar mais tarde ou sair mais cedo?
- Eu não! Já chegava atrasado e ainda com essa cara tosca, barba por fazer, cabelo  estranho, roupa zoada... Quanto menos ele soubesse que eu existia era melhor.
- Aff... Assim é você que se ferra! Aliás, corte esse cabelo!
- Ah, vá se ferrar! Não preciso que me digam isso, eu sei que está zoado, mas não estou com saco para isso agora.
- Deixa quieto... Vamos pegar mais uma?
- Não dá cara! Tenho que pegar a Júlia na facul!
- Putz, pau mandado...
- Hahaha... Pelo menos EU vou PEGAR alguém hoje, trouxa! Falô cara, a gente se vê!
- Porra, não precisava dessa. Mas firmeza, a gente se vê cara!

 Gente boa pra caramba esse cara! Até me sinto um pouco mal, sei lá, às vezes acho que sou muito duro com ele, sabe como é, coisa de "macho". Acho que devia tratá-lo melhor. É um bom amigo.

 Me dirigi até meu carro estacionado ali perto, e , de fato, não estava nada contente de ter que buscar a Júlia. Porra! Por que ela não pode pegar um metrô? Mora do lado de um... Deixa quieto, eu fico louco com ela mas não posso me dar o luxo de perdê-la. Afinal, quem mais, em sã consciência, aguentaria ficar com um cara tão insuportável quanto eu. É, eu tenho noção disso, mas fazer o quê...

 Entrei no carro e liguei o aparelho de som. Que boa surpesa! Estava tocando no rádio uma música sensacional, e que significa muito para mim.

...
 Essa é uma das músicas que me acompanhavam todos os dias quando eu saía da faculdade e ia "buscar" meu carro no estacionamento do meu antigo trabalho. 

 Eram noites frias e solitárias dirigindo tranquilamente pelas ruas vazias e escuras do trajeto até minha casa. Mas era uma sensação de paz inigualável, era como a droga mais relaxante do mundo. 

 Essa música e tantas outras tocavam no meu mp3 player e eu me sentia o dono do mundo. Não posso dizer que foram bons tempos, mas esses momentos em especial eram muito mais que bons, eram a própria liberdade vivenciada.
...

  Já no trânsito fui tomado por um bem estar repentino. Eu enchia os pulmões com um ar morno e reconfortante. Adoro a combinação "vento-carro-blues", era como se eu flutuasse enquanto deslizava com o carro pelas ruas vazias. Sabia que era melhor aproveitar, não duraria muito tempo. Logo o trânsito apareceria, em São Paulo é inevitável, e logo também encontraria Júlia. Ela me irrita mas, de certo modo, sei que é recíproco, somos dois hipócritas. Eu consigo ver que no fundo ela também sabe que nos agarramos um ao outro para não descermos mais ao fundo do poço.

 Não deveria ser assim, pelo menos não para ela que é tão bonita. Realmente não  consigo entender como ela havia terminado com um cara como eu. Seria o problema dela de auto-estima ou algum problema mental mais sério? Para falar a verdade não estava interessado em descobrir, prefiria que continuasse como estava. E por aquele instante iria apenas aproveitar, "vento-carro-blues"...