São Paulo, 3 de Fevereiro de 2013, 18:10.
Tardezinha depois do trabalho passei no "B-Ginho", Bar do Jorginho. Na verdade nunca entendi o porquê desse trocadilho infame e, francamente, eu não ligo. Só sei que estou cansado demais! Estou merecendo uns gorós... Se trabalhar o dia inteiro num escritório, aturando o "merda" do meu chefe, não for merecimento o bastante eu não sei o que é.
Acabei dando sorte e encontrei um camarada meu de longa data, Rafa. Pegamos uma mesa e ficamos jogando conversa fora. Ah, cerveja gelada! Como um amigo meu costuma dizer; -"O elixir da amizade!" Uma cervejinha gelada vai bem com esse calor todo, odeio o verão! Inclusive odeio o horário de verão, parece que o dia não acaba nunca. E essa hora é foda, é a hora em que todo mundo está de saco cheio depois do trabalho, ou rezando para sair logo. Só não é pior que de manhã. Aliás, quem foi o maldito que inventou essa estória de "horário comercial".
- Cara, o horário comercial é aquele no qual o comércio está aberto, certo?
- Certo...
- E para o comércio 'comercializar' algo é preciso que as pessoas entrem nos comércios, certo?
- Certo...
- Então, por favor, me explique por que os comércios estão abertos quando todos estão trabalhando e fecham quando todos estão livres?
- Pode crer! Nunca tinha pensado nisso... Mas não são todos.
-Claro que não é todo tipo de comércio, os shoppings, por exemplo, ficam abertos até mais tarde e são quem mais faturam.
- Eu é que sei, odeio trabalhar em shopping... Eles faturam, eu continuo na merda!
- É foda! O pior é que os serviços também seguem o horário comercial! No comércio pelo menos temos a opção dos shoppings. Dá para acreditar que eu trabalhei num banco por cinco anos e nunca consegui ser atendido no banco no qual eu tinha conta?
- Nossa! Por quê?
- Ora, os bancos não abrem antes das 10:00 e eu "entrava às 8:30", ou pelo menos deveria entrar. E eles fecham às 16:00 e eu "saia às 17:30".
- E porque não pediu para o seu chefe para entrar mais tarde ou sair mais cedo?
- Eu não! Já chegava atrasado e ainda com essa cara tosca, barba por fazer, cabelo estranho, roupa zoada... Quanto menos ele soubesse que eu existia era melhor.
- Aff... Assim é você que se ferra! Aliás, corte esse cabelo!
- Ah, vá se ferrar! Não preciso que me digam isso, eu sei que está zoado, mas não estou com saco para isso agora.
- Deixa quieto... Vamos pegar mais uma?
- Não dá cara! Tenho que pegar a Júlia na facul!
- Putz, pau mandado...
- Hahaha... Pelo menos EU vou PEGAR alguém hoje, trouxa! Falô cara, a gente se vê!
- Porra, não precisava dessa. Mas firmeza, a gente se vê cara!
Gente boa pra caramba esse cara! Até me sinto um pouco mal, sei lá, às vezes acho que sou muito duro com ele, sabe como é, coisa de "macho". Acho que devia tratá-lo melhor. É um bom amigo.
Me dirigi até meu carro estacionado ali perto, e , de fato, não estava nada contente de ter que buscar a Júlia. Porra! Por que ela não pode pegar um metrô? Mora do lado de um... Deixa quieto, eu fico louco com ela mas não posso me dar o luxo de perdê-la. Afinal, quem mais, em sã consciência, aguentaria ficar com um cara tão insuportável quanto eu. É, eu tenho noção disso, mas fazer o quê...
Entrei no carro e liguei o aparelho de som. Que boa surpesa! Estava tocando no rádio uma música sensacional, e que significa muito para mim.
...
Essa é uma das músicas que me acompanhavam todos os dias quando eu saía da faculdade e ia "buscar" meu carro no estacionamento do meu antigo trabalho.
Eram noites frias e solitárias dirigindo tranquilamente pelas ruas vazias e escuras do trajeto até minha casa. Mas era uma sensação de paz inigualável, era como a droga mais relaxante do mundo.
Essa música e tantas outras tocavam no meu mp3 player e eu me sentia o dono do mundo. Não posso dizer que foram bons tempos, mas esses momentos em especial eram muito mais que bons, eram a própria liberdade vivenciada.
...
Já no trânsito fui tomado por um bem estar repentino. Eu enchia os pulmões com um ar morno e reconfortante. Adoro a combinação "vento-carro-blues", era como se eu flutuasse enquanto deslizava com o carro pelas ruas vazias. Sabia que era melhor aproveitar, não duraria muito tempo. Logo o trânsito apareceria, em São Paulo é inevitável, e logo também encontraria Júlia. Ela me irrita mas, de certo modo, sei que é recíproco, somos dois hipócritas. Eu consigo ver que no fundo ela também sabe que nos agarramos um ao outro para não descermos mais ao fundo do poço.
Não deveria ser assim, pelo menos não para ela que é tão bonita. Realmente não consigo entender como ela havia terminado com um cara como eu. Seria o problema dela de auto-estima ou algum problema mental mais sério? Para falar a verdade não estava interessado em descobrir, prefiria que continuasse como estava. E por aquele instante iria apenas aproveitar, "vento-carro-blues"...

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